Beleza e Sexualidade

O que é belo? O que é atraente?

É difícil sermos atraídos sexualmente, por pessoas fundamentalmente diferentes de nós mesmos, na constituição racial. Assim, acontece com frequência que esta admiração por nossas próprias características raciais leva à idealização de aspectos que estão muito distanciados da beleza estética. O seio firme e redondo é, sem dúvida, um característico de beleza, mas, entre muitas das populações negras da África os seios descaem em uma idade precoce, e aí verificamos que às vezes o seio descaído é admirado como belo.

Para tornar razoavelmente completa a análise da beleza sexual deve-se acrescentar, pelo menos, um outro fator: a influência do gosto individual. Cada indivíduo, qualquer que seja o grau de civilização, constrói, dentro de certos limites estreitos, um ideal feminino próprio, em parte na base de sua constituição especial e das exigências desta, em parte sobre as atrações eventuais concretas que ele experimentou. É desnecessário salientar a existência deste fator, que tem de ser levado sempre em conta em todo estudo da seleção sexual no homem civilizado. Suas variações, porém, são numerosas e nos amantes apaixonados pode mesmo levar à idealização de aspectos que, na realidade, são o inverso do belo. Aqui nos aproximamos do campo dos desvios sexuais mórbidos.

beleza

Assim é que temos de reconhecer outro fator na constituição do ideal de beleza, um fator talvez encontrado exclusivamente nas condições de civilização: o gosto pelo incomum, o remoto, o exótico. Afirma-se comumente que a raridade é admirada na beleza. Isto não é rigorosamente verdadeiro, exceto no que toca a combinações e caracteres que variam somente em pequena escala, em relação ao tipo geralmente admirado. “Jucundum nihil est quod non reficit varietas,” (Nada que a variedade não renova é agradável), de acordo com um antigo ditado. A inquietação e a sensibilidade nervosas, maiores na civilização, aumentam esta tendência, que também não é raro encontrar em homens de talento artístico. Em todos os grandes centros civilizados o ideal nacional de beleza tende a modificar-se de certo modo, em inclinações exóticas e ideais alienígenas, assim como hábitos estrangeiros tornam-se preferidos em relação aos nativos.

A superficialidade da beleza

Se a beleza é assim, o principal elemento na atração sexual através da visão, não é o elemento único. Em todas as partes do mundo isto tem sido bem compreendido e, no jogo amoroso, no esforço para despertar a tumescência, a atração pela visão foi multiplicada e ao mesmo tempo reforçada por outras atrações secundárias.

Assim temos a scoptofilia (mixoscopia) ou a excitação sexual despertada pela visão de cenas sexuais, ou mesmo simplesmente dos órgãos sexuais do sexo oposto. Até certo ponto isto é inteiramente normal, sendo o vergonhoso de suas manifestações devido ao rígido mistério convencional no qual é mantido o corpo nu. Muitos homens de valor procuraram na juventude oportunidades para observar mulheres em seus quartos de dormir e muitas mulheres respeitáveis olharam através de fechaduras de quartos de homens, embora não gostassem de confessá-lo. É, na verdade, um hábito de senhorias e criadas fixar o olhar nas fechaduras dos quartos onde há casais, que elas suspeitam possam estar em colóquio amoroso. As pessoas que atrevidamente praticam essa mixoscopia são chamadas peepers (pessoa que espreita). Estas manifestações atraíram por vezes a atenção da polícia, principalmente em Paris, e sei de mulheres que surpreenderam homens a observá-las através da claraboia, nos fundos de instalações públicas nos jardins das Tulherias.

A moralidade como objeto de desejo

Sob outra forma temos a atração sexual por quadros com figuras não necessariamente de caráter lascivo, por cenas eróticas e a atração sexual por estátuas. Isto é, por um lado, a origem psicológica daquilo que é comumente chamado pornografia (incorretamente, visto que não tem relação especial com pornéus (bordéis) e, por outro lado, do desvio sexual conhecido como pigmalionismo, da história clássica de Pigmalião, apaixonando-se pela estátua que ele mesmo havia feito. Enquanto o interesse nas cenas e imagens eróticas é natural e normal quando não se torna uma paixão absorvente, o pigmalionismo é mórbido porque o objeto adorado é um fim em si mesmo. O pigmalionismo tem sido observado principalmente em homens, mas Hirschfeld menciona uma senhora, frequentadora dos melhores círculos sociais, que foi vista em um museu, levantando a folha de figueira das estátuas clássicas e cobrindo de beijos a parte descoberta. A atração erótica pelas fotografias manifesta-se agora principalmente, e em grande escala, através do cinema, sendo a influência mais poderosa por causa da natureza móvel e sugestiva de vida, das imagens apresentadas. Numerosas pessoas, principalmente mulheres jovens, vão ao cinema dia após dia para contemplar, em estado de excitação sexual, um herói adorado que vive talvez a milhares de quilômetros de distância e que, na vida real, elas jamais verão.

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